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As revelações de Willer Tomaz, advogado de Brasília alvo da Lava Jato

Willer nega que tenha tentado comprar o procurador da República Ângelo Goulart
Por Lilian Tahan e Larissa Rodrigues/Rafaela Felicciano/Metrópoles

Ele foi um dos convocados a depor na CPMI da JBS. Será um dos primeiros a ser ouvido e antecipou ao Metrópoles parte do que vai contar.

 

A avalanche causada pela delação premiada de executivos da JBS arrastou para dentro do escândalo um personagem que até o episódio ganhava proeminência no contexto jurídico do Distrito Federal. Amigo de figurões da advocacia na República das causas milionárias, Willer Tomaz caminhava para se consolidar, ele também, como um criminalista requisitado na capital do país. Mas seus passos foram interceptados desde o início deste ano e ele acabou preso em 18 de maio. Sua detenção preventiva foi um pedido do então procurador-geral da República, Rodrigo Janot, que, àquela altura, estava convicto quanto ao envolvimento do advogado em um esquema criminoso para atrapalhar a Operação Greenfield.

 

Quatro meses após se tornar alvo de operação policial, agora já em liberdade, Willer Tomaz se diz pronto para derrubar os argumentos que o levaram à cadeia. O advogado é um dos convocados pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito da JBS e seu depoimento foi pré-agendado para a próxima quarta-feira (4/10) no Congresso Nacional. Deve ser um dos primeiros a ganhar holofotes na CPMI criada para investigar os procedimentos do acordo de colaboração premiada celebrado entre o Ministério Público Federal e os acionistas da JBS e da J&F.

Se o rito se cumprir e Willer sentar diante de uma plateia de congressistas, vai repetir boa parte do que disse em entrevista ao Metrópoles na última quarta-feira (27/9). Entre os pontos intrigantes expostos pelo advogado alvo da Lava Jato está a acusação da existência de um acordo extrajudicial que teria sido firmado por integrante do MPF e os irmãos Batista anterior à delação oficial.

 

Willer Tomaz falou durante quase três horas sobre o acontecimento que, inevitavelmente, dividirá sua carreira em antes e depois da prisão. Negou atuar no ambiente arenoso do lobby e afirmou que os investigadores jamais vão encontrar movimentações financeiras que comprovem o cerne do pedido de sua detenção – o pagamento de mesada no valor de R$ 50 mil para um procurador da República.

 

Garantiu ter meios para provar sua inocência.

 

Sob a orientação do ministro aposentado do STJ Gilson Dipp, Willer Tomaz construiu sua tese de defesa em cima do que considera uma fragilidade das investigações. “Fui acusado de atuar sorrateiramente em favor da JBS, mas há uma obviedade nunca considerada: eu tinha a procuração dos autos e neles atuei intensamente defendendo os interesses de minha constituinte, a Eldorado. Como a PGR pôde se amparar na premissa equivocada de que eu estava fazendo lobby?”.

 

Acomodado em uma das salas de seu confortável escritório na QI 1 do Lago Sul, casa que um dia abrigou a chamada República de Ribeirão, de Antonio Palocci, o advogado revisitou o histórico de fatos que desaguaram em sua prisão. Mas sempre sob a perspectiva de que fora uma vítima das circunstâncias e o ex-PGR, seu algoz numa busca “sem limites” para emplacar sucessor à frente do Ministério Público Federal (MPF).

 

Willer contou que a ligação com o grupo JBS começou entre janeiro e fevereiro deste ano e que teria sido intermediada pelo presidente da seccional da OAB no DF.

 

No final de janeiro de 2017 ou início de fevereiro, o Juliano Costa Couto me ligou e perguntou se eu poderia recebê-lo em meu escritório. Ele veio com o Francisco de Assis e Silva, diretor jurídico da JBS e me indicou para pegar a defesa da Eldorado, no âmbito da Greenfield. Na época, o advogado das pessoas físicas Joesley e Wesley [Batista] era o José Paulo Sepúlveda Pertence. Mas a Eldorado não tinha advogado constituído e estava a sofrer os efeitos da investigação”

Willer Tomaz, advogado

A essa altura, o advogado Willer, que mora na QL 6 do Lago Sul, em mansão vizinha a anabolizados escritórios da cidade, colecionava contatos importantes na capital. Um deles, com o procurador da República Ângelo Goulart Villela, a outra ponta de um triângulo que, para o Ministério Público, tinha o objetivo de atrapalhar as investigações envolvendo empresas do grupo JBS.

 

O Francisco pediu para que eu enviasse uma proposta de trabalho ao diretor jurídico da Eldorado, o Daniel Pitta. Mandei uma proposta de honorários, ele me devolveu uma contraproposta, e nós chegamos a um termo. Eles pediram para que eu atuasse na Greenfield, Cui Bono? e Sépsis, desde a fase de inquéritos até o trânsito em julgado no Supremo. Seria uma operação longa, com a atuação de vários advogados da nossa banca. Assinamos o contrato em 23 de fevereiro. Há, portanto, um grande equívoco, porque o Janot argumentou, para pedir minha prisão, que eu atuava como lobista e não tinha procuração nos autos, que recebi R$ 4 milhões para vender um procurador e um juiz. Mas, veja, em 17 de fevereiro, eles me deram uma procuração assinada pelo presidente da Eldorado. No dia 22 de fevereiro, eu juntei essa petição ao inquérito para o qual fui contratado. O termo estabelecia R$ 4 milhões em pró-labore e outros R$ 4 milhões a título de êxito, em caso de arquivamento da investigação. O Janot omite tudo isso. Tenho inúmeras petições nos autos, audiências com o magistrado, consultorias para a empresa. Enfim, nada além do exercício da advocacia”

 

Segundo o advogado, havia uma negociação sigilosa em andamento entre procuradores federais e comando da JBS

 

Na meta de explicar como um advogado poderia republicanamente intermediar encontro extraoficial entre um procurador da República integrante da Greenfield e um executivo da JBS, alvo das investigações, Willer afirmou ter havido uma negociação sigilosa entre representante do MPF e o grupo empresarial. A aproximação seria anterior à conhecida delação dos irmãos Batista.

 

Também foi omitido pela acusação que, em setembro do ano passado, o Ministério Público havia feito um acordo extrajudicial entre Joesley e Wesley, subscrito pelo procurador da República Anselmo Lopes. Um acordo em que eles se comprometiam a depositar R$ 1,5 bilhão, valor equivalente ao que foi adquirido pela Petros e pela Funcef [fundos de pensão] das ações da Eldorado. Isso indica que já existia tratativa dos irmãos com o MPF quando o Francisco me procurou e me pediu para abrir uma nova frente de diálogo. Embora eles estivessem supostamente negociando um acordo de colaboração, Joesley e Wesley estavam com medo de serem presos, achavam que o Anselmo não cumpriria com o que havia sido acordado”

Apesar de Willer Tomaz ser um crítico do instituto da delação premiada e ter dito que nunca atuou formalmente em uma negociação do tipo, sua linha de defesa é justamente no sentido de mostrar que ele estava empenhado em aproximar um candidato à delação de um procurador da República. Tudo, no entanto, no âmbito da informalidade.

 

Já em março, o Francisco me ligou perguntando se estava em Brasília. Esse foi o nosso segundo ou terceiro contato. Na ocasião, me disse que ficou muito impressionado com a atuação do nosso escritório no processo para o qual tínhamos sido contratados e pediu: ‘Preciso que você me ajude a abrir uma frente de diálogo com o MPF, com alguém confiável, não como o Anselmo, que vem agora querendo descumprir o que acordamos’. Eu, então, peguei o telefone na hora e liguei para o Ângelo. Somos amigos, mas, independentemente disso, ele sempre foi um procurador da República muito sério”

Willer e Ângelo se conheceram há pouco mais de dois anos, durante o aniversário de uma amiga em comum, a esposa do deputado Weverton Rocha (PDT/MA).

 

O Ângelo me falou, naquela ocasião do telefonema, que tinha, sim, interesse em ouvir o Francisco e orientou que ele fosse à PGE [Procuradoria-Geral Eleitoral]. Mas Francisco disse achar melhor a reunião ser em outro lugar, e aí sugeriu o meu escritório. O Ângelo concordou em vir. O que há de antirrepublicano nisso, de ilícito? Sequer foi em uma distribuidora de bebidas encoberto por engradados de cerveja. A partir daí, tudo o que foi contado nada mais é do que uma grande armação dos delatores. Ângelo e Francisco se encontraram no meu escritório por não mais de 10 minutos. Francisco expôs a situação, sua insegurança, e combinou com Ângelo que entregaria documentos sobre as empresas, com a finalidade de medir o interesse do MPF em iniciar uma pré-delação, em uma oportunidade seguinte”

Dias depois desse primeiro encontro, Willer afirma ter recebido áudio de Ângelo sobre uma audiência, cujo conteúdo dava a entender que um dos executivos fundadores da Eldorado estava inclinado a fazer uma delação premiada, pressionado pelo procurador Anselmo. O advogado disse ter levado essa informação para Francisco, que teria demonstrado todo o interesse em dar encaminhamento às tratativas com o procurador Ângelo Goulart.

 

Passados uns dias, ele [Ângelo] me enviou um áudio de uma audiência que tiveram com o Mário Celso Lopes, um dos fundadores da Eldorado, que estava sendo pressionado pelo Anselmo a delatar. Aí, ele [Ângelo] falou: ‘Diz para o Joesley que, se ele não delatar, o Mário vai delatar. E se o Mário delatar, não nos interessa mais a delação do Joesley’. Eu contei isso para o Francisco e ele me disse que o Joesley queria me encontrar. Desembarquei no aeroporto de Brasília e me encontrei com ele [Joesley] lá no hangar Ícaro, onde guardava seu jato. Ele me pediu para ouvir o áudio. Eu mostrei o início e ele saiu de onde estávamos com o pretexto de fazer o plano de voo. Quando voltou para onde eu o esperava, ele já tinha o gravador ligado. Eu telefonei para o Ângelo e disse que o Joesley ficou muito impressionado com o conteúdo do áudio e o Francisco iria separar os documentos para levar até ele [Ângelo] e dar sequência na pré-delação”

 

Uma das cenas mais marcantes no contexto da delação dos executivos da JBS foi captada em um jantar após o encontro de Willer com Joesley no Aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek. A partir daquela sinalização, o advogado marcou uma reunião em sua casa, segundo ele, a pedido de Francisco, para que o executivo pudesse entregar os documentos prometidos a Ângelo.

 

O encontro ocorreu em 3 de maio, dia de jogo do Flamengo com a Universidad Católica do Chile. Naquela data, segundo a versão de Willer, Francisco chegara a sua casa com duas pastas AZ recheadas de documentos. Desacompanhados de suas mulheres, Willer, Ângelo e Francisco comeram churrasco, tomaram duas garrafas de vinho e assistiram ao Flamengo vencer o time chileno por 3 a 1. De quando em quando, Francisco pedia para checar o placar do Atlético Paranaense, que também jogava naquela quarta.

 

Em determinado momento, quase na hora de eles [Ângelo e Francisco] irem embora, Francisco levantou-se e disse, enquanto estava de pé, que precisava checar uma mensagem em seu telefone, acho que teria se referido a uma filha. Foi quando posicionou a câmera para a mesa e tirou a foto em que Ângelo e eu aparecemos sentados [imagem acima]. Qual o conteúdo incriminador dessa foto? Nenhum. Hoje está muito claro para mim que tudo, àquela altura, tinha sido minuciosamente armado para um flagrante. Francisco e os irmãos Batista estavam pressionados a jogar uma isca, entregar algo que fosse de grande interesse de Janot, porque, desde o dia 20 de fevereiro, os termos da delação começaram a ser negociados com o procurador-geral. Nesse dia, aliás, Anselmo levou Joesley até a PGR, quando ele se reuniu com Sérgio Bruno [promotor de Justiça integrante da Lava Jato]. Então, aquela história toda de que Francisco não confiava no Anselmo, que queria a ajuda de um procurador para iniciar tratativa paralela de delação, era mentira. Estavam todos combinados para rifar o Ângelo, que era um cabo eleitoral de Dodge e queria muito encontrar um caminho de se estabelecer em Brasília, já que sua atuação junto à PGE terminaria em pouco tempo e ele corria o risco de voltar para a sua base de origem, em outro estado. Protagonizar uma negociação desse porte seria um caminho para ele”

No dia do jantar, quando Willer foi levar seus convidados até a porta, ele percebeu um Ford Focus Sedan preto parado perto de onde estavam. Desconfiado, anotou a placa e no dia seguinte pediu a um amigo que checasse a procedência do carro. Foi quando descobriu que o veículo era chapa-branca e costumava ser usado em operações da Polícia Federal.

 

Ali, me dei conta de que poderia estar sendo monitorado. Um dia depois, recebi uma ligação do Francisco que me abordou de uma forma muito estranha, dizendo que o jantar tinha sido muito proveitoso e, agora, precisava de um encontro com o juiz Ricardo Leite [substituto da 10ª Vara Federal em Brasília]. Fiquei estupefato, quanta audácia do Francisco. Certo de estar sendo usado, perguntei a ele que conversa era aquela. Acabei desligando e ele me mandou várias mensagens que deixei sem resposta. Poucos dias depois, recebi uma comunicação do Daniel Pitta me informando sobre a rescisão do contrato entre o meu escritório e a Eldorado. Ao me indagar se sabia o motivo, respondi que certamente seria pelo pedido do Francisco para atuar fora dos autos e ele sabia que só agiríamos dentro. Essa ligação foi interceptada. Naquela ocasião, Francisco e Joesley já tinham prestado depoimento aos procuradores da Lava Jato afirmando ter conhecimento de que eu pagava mesada de R$ 50 mil para o Ângelo influenciar na Operação Greenfield”

Em meio à papelada que Willer juntou para sua defesa, há depoimentos dos executivos da JBS em duas ocasiões. Quando citaram oficialmente o caso pela primeira vez, contaram ao Ministério Público ter conhecimento de que o advogado de Brasília exercia influência sobre um procurador e um juiz da Lava Jato. Em uma segunda etapa, os delatores foram chamados pelos procuradores da República Ronaldo Albo, Elton Ghersel e Alexandre Barbosa para se pronunciarem dentro do processo administrativo aberto contra Ângelo.

 

Na conversa em que Joesley grampeou o Michel Temer, em 7 de março, ele [o empresário] deixou a entender que tinha a seu lado um procurador e um juiz, o que em tese comprometeria muito a imagem do presidente. Mas aí ele precisava provar aquela bravata. Por isso, fui usado como isca para que chegassem até o Ângelo. Mas são justamente os delatores que informam ao Ministério Público duas versões conflitantes sobre minha participação no episódio. Na primeira delas, Joesley e Francisco dizem que eu tinha o procurador e o juiz nas mãos e que pagava uma mesada de R$ 50 mil a título de ajuda de custo para manter o apoio de Ângelo. Apresentaram a foto do jantar como prova desse pagamento. Um absurdo. A partir daí, tive meu sigilo telefônico quebrado e fui monitorado durante 15 dias, mas os procuradores não encontraram nada. Não há nada em toda a ação do PGR que me comprometa. Aliás, os grampos revelam que minha atuação foi dentro dos autos, bem como o exercício regular da advocacia. Depois, em junho, já no escopo do processo administrativo contra Ângelo, o mesmo Joesley afirmou não saber dizer ao certo se houve pagamento de R$ 50 mi”

À vontade dentro de seu terno bem cortado, com uma silhueta mais fina do que antes da temporada na prisão, Willer parece encorajado pela convicção de que as imputações do Ministério Público a ele (formação quadrilha, corrupção ativa, violação de sigilo e obstrução à investigação de organização criminosa) não vão prosperar na Justiça. Como o próprio presidente Temer e outros tantos personagens jogados no caldeirão dos irmãos Batista, ele vai se valer das inconsistências no processo de delação – que acabaram com um revés integral do acordo de colaboração – para tentar se livrar do estigma de advogado corrupto. Até o dia em que for chamado a se explicar, ele coleciona fatos para desqualificar a versão de Rodrigo Janot.

 

Mais esbelto do que quando foi preso, ele está convicto de que não será denunciado devido às inconsistências das delações dos donos e executivos da JBS

 

Na ocasião em que conversou com a equipe do Metrópoles, Willer Tomaz mostrou um trecho da entrevista que Rodrigo Janot concedeu recentemente ao Correio Braziliense. No caso, o recém-saído PGR respondia se causava suspeição o fato de o advogado Willer Tomaz receber em sua casa figuras importantes como o próprio procurador-geral de Justiça do DF, Leonardo Bessa. No que Janot disse: “Relacionamento da gente com advogado é uma coisa normal. Dos meus amigos que fiz em Brasília quando cheguei há 33 anos, a maioria é advogado. Todo mundo se conhece. E advogado de bandido não é bandido. A gente tem que ter esse relacionamento”.

 

Era a deixa que Willer precisava para se descolar um pouco mais do furacão JBS.

 

Procurada pela reportagem, a assessoria de imprensa de Rodrigo Janot informou que o ex-procurador-geral está em viagem fora do país e que não poderia ser localizado para comentar a entrevista. Já o Ministério Público Federal afirmou, na última sexta (29), que tentou localizar o procurador Anselmo Lopes, mas não obteve sucesso até a publicação da reportagem.

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